Não sabemos nada, mas somos Tudo
- jg

- 24 de mai. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 22 de jun.

Nem sei por onde começar, mas vou tentar… A filha mais velha, o genro e o neto, depois de uma semana, partiram da ilha. É sempre muito bom, raro e especial quando vêm de longe e os podemos ver e sentir ao vivo, finalmente perto.
Estive uma semana, algo inédito nestes últimos 5 anos, sem abrir o Instagram, sem vos dizer bom dia e sentir-vos desse lado… Passei a semana a tratar de mim, alternando com o prazer de termos cá a filha, o genro e o neto querido. Fui contando esta história a poucas pessoas e aproveitando para chorar o que não queria arrastar comigo para o resto da vida.
Na segunda-feira, ao que parece a quem foi sabendo da história, salvei uma vida. A vida de um jovem de 25 anos, o B., que, pela segunda vez, tentou acabar com tudo — certamente com muito sofrimento e desesperança neste mundo também doente.
O que decidi agora contar-vos desta triste história que, por agora, acabou bem, tem apenas um propósito. O propósito de partilha do que não me sai da cabeça, do corpo e da alma — de quem sabe, em primeira pessoa, que tocou ou foi tocada por algo maior. Algo que pertence a todos os que agora me ouvem com atenção e que queiram guardar dentro de si…
Vocês sabem, pelo que vão percebendo por aqui há anos, o quanto detesto e resisto a fazer exercício. Apesar disso, porque sei o quanto me faz falta mexer um bocadinho o corpo — para além do que me mexo na mente — ando sempre à procura de exercícios, práticas e rotinas, de preferência micro e fáceis, mas eficazes, que consiga manter com o passar do tempo.
Há três anos consegui finalmente comprometer-me: “enquanto tiver pernas, vou andar todos os dias no mínimo 10.000 passos.” Arranjei um segundo “plano-truque” para quando, alegremente, me preparasse para desistir (não sofro com isso) e finalmente o meu cérebro entendeu que, tal como lavamos sempre os dentes, andar faz parte da minha rotina diária e obrigatória. Três anos depois, gosto? Não. Custa-me? Também não, porque já não penso nisso.
Na segunda-feira, porque a filha, o genro e o neto estavam cá, logo cedo os passos ficaram dados — muitos mais passos, bons passos. O fim do dia foi passado a trabalhar e a estudar, e depois o jantar foi cedo e despachado.
(20:30) Levantei-me de repente e fui mudar os calções com que durmo para uns calções de ginástica.
— Estás a fazer o quê? — perguntou o P. espantado.
Hesitei, sem conseguir encontrar uma resposta.
— Ai, deixa-me! Vou andar…
— Andar?... Mas se já deste mais do que os passos da conta?
— Pois… Ai, deixa-me!
E saí porta fora, estranhamente leve e determinada, e fui em frente, na direção sul, pela passadeira de cimento que atravessa a ilha de uma ponta à outra, na direção da praia oceânica.
Não tive um pensamento de estranheza, apesar de tudo ter sido muito estranho, e fui andando até ao fim das casas, onde começa a passadeira de madeira que atravessa o início do grande areal até às casas de banho da praia.
Hesitei mais uma vez no lusco-fusco bonito e cor-de-rosa… Nunca, quando me falta completar o número de passos do dia, sigo em frente pela passadeira de madeira. NUNCA. A verdade é que nem costumo ir até lá à ponta, porque prefiro ir controlando a distância e os passos mais perto de casa, para garantir que a conta é mesmo certa - 10.000… E já aconteceu muitas vezes fazer os últimos passos em frente ao portão de casa para não precisar fazer nem mais um. E os passos do dia estávam ultrapassados…
(Posso ir à praia e dar a volta, pensei eu…
Estás maluca, Joana? É o quê? Não vais nada pela praia, vai ficar escuro antes de voltares. E porquê?)
(Vou só até ao cruzamento das passadeiras das casas de banho…)
Avancei, sempre leve. Filmei-vos a paisagem bonita, que nunca cheguei a partilhar (20:40). Chegada ao cruzamento das passadeiras de madeira, em frente mais uns metros terminava uma e depois era só areia até ao mar, entre dunas. À esquerda, outra passadeira que vai longe até à praia grande dos chapéus de sol e do bar. Voltei a hesitar… Era mais do que hora e momento de voltar para trás…
(Vou só pela esquerda, contorno as casas de banho, passo pelo fim desta passadeira e volto para trás…)
Depois de dar a volta, pelo canto do olho, no fim/início da passadeira por onde voltaria, reparei num saco transparente fechado com um nó. Consegui ver um telemóvel, uns óculos e uma carteira masculina.
— Oh… Alguém deixou cair de um saco da praia, pensei.
Olhei à volta e baixei-me para o apanhar. Levantei-me enquanto a minha mente começava a acelerar para decidir o que fazer, a quem telefonar, a quem entregar, e o telemóvel tocou dentro do saco…
— Estou? Boa noite, ia a passar, acabei de encontrar o telefone, o saco…
— POR FAVOR!!!!!!!!!!!! ESTÁ ONDE?!!!!!!!!! QUEM FALA?!!!!!!!! ONDE É QUE ESTÁ?!!!!!!!! O MEU FILHO!!!! É DO MEU FILHO!!! DEIXOU-NOS UMA CARTA!!!!
Não me lembro, a partir daí, do mundo à minha volta, da areia, do céu, da vida. Comecei imediatamente a correr por instinto em direção à praia, enquanto ouvia aquela mãe desesperada contar-me que o filho já tinha tentado uma vez pôr fim à vida, e que desta vez tinham encontrado a carta de manhã e que havia uma fotografia que parecia ser da ilha.
Ouvi-me perguntar-lhe que idade tinha e como se chamava. “B., 25 anos, mas parece mais novo…”
Continuei a correr sem hesitar na direção, já não a ouvi dizer-me que ia mandar-me uma foto dele. Por precaução, dei-lhe o meu número de telefone, caso acontecesse alguma coisa, e corri, corri pelo areal entre as dunas, em direção à beira-mar.
Sempre a correr, olhei para os lados da praia enorme e deserta e vi, em frente, um casal de meia-idade, ele a pescar. Passei por eles sempre a correr e decidi ir pela esquerda, enquanto aos gritos lhes perguntei se tinham visto alguém, um jovem.
Eram franceses. Não perceberam nada. E eu sou uma tragédia a falar línguas, porque um bicho-do-mato pratica pouco a fala… Sempre a correr, ainda percebi que apontaram para o meu lado. Entretanto, a uns metros deles, cruzei-me com um jovem que também pescava, provavelmente o filho. Gritei-lhe em inglês que estava à procura de alguém, que era uma emergência, e que, se me ouvisse gritar, teria de me ajudar. O meu inglês é melhor do que o francês, pareceu-me que percebeu, mas sorriu, acenou com a cabeça e continuou calmamente a pescar como se eu lhe tivesse desejado boa pesca…
Lembrei-me da mãe na minha mão.
— Estou?
— ESTÁ ONDE?!!!!!!!!!!!
— Estou na praia. Vim procurá-lo.
(Lá ao fundo, na água… Quase à beira-mar, uma mancha, um vulto escuro… Será uma pessoa? Um corpo?)
Continuei a correr e disse à mãe que achava que o estava a ver, que o tinha encontrado e, enquanto isso, percorri os últimos metros, 'dos mais difíceis e tristes da minha vida', com a mãe dele na mão e a preparar-me para a aflição do que estava prestes a encarar e partilhar…
Olhei para trás e gritei pelo jovem filho dos franceses até ter a certeza de que viria.
Estava meio a boiar de lado, quase à beira-mar sem ondas. Os olhos abertos e fixos a olhar o vazio. Muito branco e magro, encovado, com os braços dobrados e as mãos encolhidas e hirtas. Tão, tão vulnerável. Tão, tão sozinho…
— Estou? Encontrei-o! Preciso de desligar para o ajudar. Vai correr tudo bem! Tem o meu telemóvel, ligue-me daqui a uns minutos.
— Oh… És o B., não és? - disse eu, enquanto me ajoelhei. Sustive a respiração para respeitar o silêncio e agarrei-lhe a cara com as duas mãos. Vai correr tudo bem. Vais ficar bem. Prometo…
— Temos de o tirar daqui, de o despir já, tentar secá-lo e esfregar-lhe o corpo, porque está em hipotermia, ouvi-me dizer ao outro jovem, numa trapalhada de inglês.
Percebi que o casal de franceses também chegava, entretanto, para ajudar.
A mãe e o meu telefone não paravam de tocar. Fui-me afastando para falar com todos , 112, polícia marítima, que já tinha uma participação desde a tarde…
Escuro, noite breu, todo esfregado e enrolado em toalhas, inerte. Eu a fazer-lhe perguntas baixinho para que não adormecesse ou desmaiasse, e ao mesmo tempo na dúvida se lhe estaria a gastar os últimos respiros. Consegui arrancar-lhe o bairro de Lisboa e disse-lhe que estava a morar na ilha há cinco anos, mas que também era de lá.
Começou a ficar vento. Fizemos uma barreira com os nossos corpos, sem parar de o esfregar. Parecia-me que estava a respirar pior…
(Mas por que não vem ninguém?! São 5 minutos para chegar de lancha aqui!, desesperei-me.)
— Estou? É o senhor que me ligou há pouco a pedir informações e o meu contacto? Por que não vêm?!
— Ah e tal, estamos a decidir qual a embarcação, qual está disponível… Tem de ter paciência, já assinalámos o pedido…
Telefonou-me outra senhora, que percebi não ser a mãe. Senti-a desconfiada da minha pessoa. Pausadamente, foi-me fazendo perguntas: onde estava, quem era, o que se passava, como estava o B. Contei-lhe tudo pacientemente, em transe. Acabámos as duas a chorar, eu a dizer-lhe que ele parecia ser muito querido e muito triste, e que tinha sido uma sorte tê-lo encontrado.
Explicou-me que era mãe do único amigo de infância dele, e que ele era de facto muito querido. Um miúdo muito tímido e inteligente, mas que estava sempre muito sozinho. - Sabe, ele é um miúdo impecável. Não bebe, não fuma, mas é muito tímido e tem razão, deve estar deprimido.
— Tenho de desligar. Diga à mãe que vai correr tudo bem…
— ESTOU?!!! ESTÃO À ESPERA DE QUÊ?!!!!!!!!!!!
— Já é prioritário…
— PRIORITÁRIO?!!!!! MAS QUE PORCARIA DE PAÍS É ESTE, EM QUE NÃO HÁ UM HOMEM A 5 MINUTOS DE DISTÂNCIA QUE SE META NUMA PORRA DE UM BARCO — NEM QUE SEJA DE UM PESCADOR E VENHA BUSCAR O MIÚDO QUE NOS ESTÁ A MORRER NOS BRAÇOS PARA O LEVAR PARA O HOSPITAL?!!!!!!!!!!
(Silêncio)
— Já vamos…
— Sim. Respirei fundo. Agora vai ensinar-me a fazer a manobra de salvamento ou lá como se chama.
— A senhora não sabe… o esterno…
— PORRA!!!!! Onde no esterno? (4 dedos acima na direção da garganta…) Quantas vezes a pressão com as palmas da mão? (30) E depois a respiração? A língua? Quantas vezes? (3) E depois repito tudo? (Sim). Ok, até já.
No meio do escuro, lembrei-me do P. que devia estar preocupado sem saber de mim. Liguei-lhe e disse-lhe que viesse ter imediatamente à praia com um edredão de penas e um cobertor antigo de papa. Rápido! Diz ele que percebeu a urgência na voz, mas não a tragédia, achou que estávamos, filhos e neto, na praia a ver as estrelas, cheios de frio e sem ele.
Acendi a lanterna do telefone para que nos vissem do mar.
Dez minutos depois, estavam lá três homens grandes que hesitaram em molhar os sapatos ao sair do barco… (É a segunda vez, num curto espaço de tempo, que assisto a uma cena idêntica e ainda não me conformei.)
Chegou também, entretanto, outro barco dos bombeiros, dois homens e uma rapariga.
— 31º de temperatura. Temos de o levar imediatamente.
Enrolado no nosso edredão de penas com a capa às risquinhas azuis. Dois barcos de socorro e não tinham uma manta térmica para um jovem a morrer com hipotermia…
— Pois… Acabaram…
(A próxima vez que for às compras, vou à loja do chinês comprar uma.)
Desapareceram no mar e ficámos ali no escuro. Depois de fazer um resumo enervado e baixinho ao P., pedi-lhe que explicasse aos franceses o que se tinha passado. Eles achavam que era um familiar ou conhecido nosso.
Sem ver nada, ouvi a senhora francesa perguntar se teríamos algumas toalhas que lhes pudéssemos emprestar, porque tinham chegado nesse dia à casa alugada de férias e as toalhas tinham ido todas com o rapaz.
O meu cérebro, zonzo, acelerado e ainda em choque, percorreu o armário lá de casa, as gavetas, a arca e os sacos debaixo da cama para tentar “salvar” a senhora do deserto das toalhas e, ainda no meio do choque, declarei:
— Nous sommes minimalistes!
Regressámos pela passadeira em silêncio. Passámos em frente à casa deles, que nos convidaram para beber qualquer coisa…
— Obrigada, preciso de ir chorar.
Chorei muito, muito, enquanto caminhei mais não sei quantos passos em frente a casa para esgotar a energia das pernas que ainda me sobrava. Chorei muito, com a sensação da urgência acachapada ao corpo e com a tristeza profunda de o imaginar a ir-se embora sozinho, tão sozinho, na água e na escuridão, caso não tivesse ido lá ter.
A noite passou, comigo a acordar e a adormecer.
(Será que se salvou? Joana… Foste lá ter, sem saber porquê, não foste? Claro que sim…)
Na manhã seguinte, telefonei para o hospital e confirmei o que já sabia. Ainda assim, chorei muito de alívio.
A mãe ligou-me e disse-me que o filho tinha perguntado por mim.
Acabei por dar boleia à mãe e à amiga, e insistiram para que fosse lá ter com ele às urgências.
A mãe conseguiu que eu entrasse sozinha. Desfoquei os olhos e fui à procura dele passando pelo meio dos corredores das urgências abarrotadas de pessoas sozinhas à espera.
Reconheci-o, outra vez a uns metros… Mais colorido e cheio de fios. Senti a pressão do eventual valor daqueles minutos e do que eu, improvisadamente, lhe diria. Falei calmamente, mas sem parar, e entre uma catrefada de disparates, fui intercalando coisas sérias, recados, curiosidades da vida e dificuldades, tentando abrir um espaço, o possível em tão pouco tempo, para uma confiança que lhe queria garantir para o futuro. Apesar da timidez gigante e de não ter conseguido olhar para mim, percebi-o curioso daquela maluca e consegui arrancar-lhe pelo menos três esgares de sorrisos.
Soube depois pela mãe, que ia ser transferido para um hospital central em Lisboa, e que ia ser acompanhado. Fiquei contente e aliviada.
Antes de sair, fui recuperar as nossas roupas e as toalhas da francesa, enfiei tudo numa máquina de lavar e secar enquanto fui às compras, e voltei para casa, para o sofá de onde no dia anterior me tinha levantado decidida, sem saber por quê…
Agora já sei. E vocês também.



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